terça-feira, 13 outubro , 2026

36 Horas: quando o mundo gira rápido demais 

Janeiro costuma ser o mês das férias, das pausas merecidas e também o mês em que voltamos nossos olhos para a saúde mental. Existe, nesse período, uma campanha brasileira que nos convida a refletir sobre o cuidado com o bem-estar emocional, a quebrar preconceitos e a desmistificar a busca por ajuda profissional.  

Um lembrete importante de que saúde mental não é assunto pontual, mas um exercício diário. 

Foi embalada por essa reflexão que escrevi minha primeira crônica do ano, falando sobre a loucura dos tempos modernos, sobre velocidade, assertividade e atenção. Quatro dias depois, a vida resolveu me colocar dentro do próprio texto — não como observadora, mas como personagem central de um furacão. 

As férias foram suspensas. Quando se trata de filhos, qualquer tentativa de negociação é inútil: a decisão já foi tomada no primeiro pedido, geralmente acompanhado de um sorriso carregado de sonhos. Estávamos ali para apoiar nossa filha em dois momentos decisivos de sua vida. E isso basta. 

Durante aproximadamente 36 horas quase ininterruptas, eu, meu marido e minha filha fomos atravessados por um volume absurdo de estímulos, informações e emoções. Um verdadeiro nocaute em forma de Jab Triplo.                   

O corpo seguia em frente, mas o cérebro mal conseguia processar tudo o que chegava sem pedir licença.

Em apenas 36 horas, coube tudo isso: 

Despertador, banho, café, documentos, viagem, BR, trânsito, buzinas, freadas, ultrapassagens, alarmes, pardais, semáforos, música, pórtico, restaurante, comida fria, sobremesa boa e outra ruim, apuros e banheiro interditado, calor, tendas, guarda-sol, picolés, sorvete, areia, mar, café, prova, avaliações, medo, ansiedade, calor — muito calor — ar-condicionado, música, prosa, sono, pausa para o café, malas, bolsas, comidas, mudança, BR, balsa, pedágios, trânsito intenso, música,  congestionamento, chegada, reconhecimento facial (falha), reconhecimento facial (falha), ansiedade, reconhecimento facial — FALHA — terceira e última tentativa, dúvida, medo, fome, peregrinação, hotéis lotados, mais peregrinação, sufoco, hospedagem, R$ R$ R$, cerveja para comemorar, banho, dor de barriga, azia, despertador, café matinal, reconhecimento facial negado, regularização, reconhecimento facial negado, dor de cabeça, remédio, apresentação de estágio, refeição rápida, reconhecimento facial negado, regularização, zelador “zeloso”, reconhecimento facial autorizado, alívio, engarrafamento,  início do estágio, abraço e emoção, volta para casa, BR, abastecimento, música, prosa, choro, fome, sono, casa, comida pros gatos, cachorro, preocupação, café, banho, uma ligação, um beijo e cama. 

Quando finalmente nos demos conta de tudo o que havia acontecido — e da intensidade com que aconteceu — ficou evidente o quanto somos diariamente expostos a uma avalanche de ações, decisões e informações. E pensei, com um nó no peito, no impacto disso tudo para alguém que está apenas começando a vida profissional. 

Quantos estímulos um cérebro jovem consegue processar sem adoecer? Quanto dessa pressão silenciosa chamamos, equivocadamente, de “normal”?

Mais uma vez, a vida mostrou que não está tudo sob nosso controle. E que o controle emocional é essencial para atravessar o caos e tomar decisões minimamente equilibradas. Família, nesse contexto, deixa de ser apenas afeto e passa a ser fator determinante de saúde — ou de adoecimento. 

Felizmente, conseguimos, cada um à sua maneira, assumir o próprio papel. Houve apoio, mas confesso que teve cara feira. Por outro lado, teve escuta, silêncio, quando necessário e mãos estendidas quando o chão pareceu fugir. Criamos nossos filhos para o mundo, sim, mas precisamos ser porto seguro para as paradas estratégicas da vida. 

Já em cidades diferentes, deitados, aconchegados, o sono demorou a chegar. O corpo ainda tremia, tentando encontrar equilíbrio depois de tanto agito. Em alguns momentos cheguei a lembrar da frase: “Pare o mundo que eu quero saltar”. Ainda bem que não saltamos. Nenhum de nós três. 

Seguimos de mãos dadas — agora torcendo para que os próximos trinta dias sejam de descobertas, aprendizados e acolhimento para nossa filha, na estrada que ela escolheu trilhar. Que o mundo continue girando, mas que nunca nos falte família para desacelerar. 

 

Nos encontramos nas próximas linhas! 

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